Escrevendo “SALVE JORGE”

Assim, Thomas não percebeu o exato instante em que o cabo de Ascalon deslizou por entre seus dedos, tampouco o movimento de seus braços enquanto erguia a espada, desvencilhando-a do trapo que a envolvia. Então, a lâmina desceu com violência, revelando a textura mortal da carne e o cheiro de sangue. Houve um urro ensurdecedor, e Thomas sentiu ser arrancado do chão pela temível sombra, subindo cada vez mais, até que o telhado da igreja despedaçou-se acima dele, e a noite do Rio de Janeiro se escancarou numa tormenta de luzes, vidro e concreto.

Foi uma questão de segundos, até que o arrebatamento cessou em baque seco e doloroso. Thomas cuspiu um punhado de capim, antes mesmo que a dor profunda em seus músculos e ossos lhe informasse que ainda estava vivo. Abrindo os olhos, deparou-se com um cenário tranquilo e escuro. Estava estendido sobre um gramado, e ao seu redor se espalhavam umas poucas árvores e arbustos que ele, incrédulo, logo reconheceu.

Estava de volta ao Campo de Santana.

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Quando a Draco anunciou a abertura da antologia “Dragões”, corri para o caderno e comecei a anotar todo e qualquer farrapo de ideia que vinha à cabeça sobre o tema. Sabia que seria um dos maiores lançamentos da Editora. Estava determinado a me esforçar ao máximo para conseguir uma vaga entre os escolhidos. As possibilidades eram tantas que, no fim, acabei usando um sistema de eliminação para decidir qual trama tinha mais potencial.

Assim, várias ideias passaram pela minha cabeça, indo do suspense à comédia, mas em todas havia um elemento comum que eu sabia que de uma forma ou de outra acabaria no conto: o uso de elementos clássicos da mitologia dos dragões extraídos da nossa História, e não de um universo de fantasia fictício. No fim das contas, optei pelo que de mais emblemático existe sobre o tema “dragões” quando falamos de Brasil, isto é, a fé em São Jorge como o Matador de Dragões. Assim, foi um pulo para decidir localizar a história no meu Rio de Janeiro contemporâneo, e na Igreja de São Jorge que todo ano figura nos noticiários quando chega o dia do Santo.

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Até hoje, “Salve Jorge” foi um dos contos que mais gostei de escrever, não só por poder costurar as referências históricas na trama, mas em especial pela pesquisa envolvida. Foi muito divertido investigar as origens do mito de Jorge, e a maneira como ele se relaciona com outros (por exemplo, na figura da “espada sagrada” tão comum na iconografia de guerreiros lendários).

E mais divertido ainda foi subvertê-lo!

Você pode baixar o conto em formato e-book na sua loja preferida, acesse a hotpage: http://editoradraco.com/2012/12/23/dragoes-salve-jorge-andre-s-silva/

Originalmente publicado em http://blog.editoradraco.com/2013/10/dragoes-escrevendo-salve-jorge-andre-s-silva/

Escrevendo “CAVALEIRO ANÔNIMO”

Um saxão está ao meu alcance. O primeiro dos muitos que pretendo matar por Camelot. Ele acaba de chocar seu escudo contra um dos nossos. Ataco sem que ele tenha chance de me ver. Acerto-o na altura do coração e assisto enquanto ele desaba, com os olhos arregalados.

Matar um homem não é tão difícil quanto eu imaginava.

Ergo os olhos e vejo mãos empunhando espadas, corpos trajando armaduras, mas nenhum rosto. Ouço milhares de vozes, não reconheço nenhuma. O pano de fundo da minha batalha é um pandemônio de vidas sem nome sendo devoradas pelo esquecimento. Não sei onde está o Rei ou os demais cavaleiros.

Talvez em algum lugar à minha frente.

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Idylls of the King – Gustave Doré

Demorou um pouco até eu decidir tentar uma vaga na coletânea Excalibur. Apesar de ter algum conhecimento das lendas arturianas por conta dos estudos literários na Faculdade de Letras, em um primeiro momento eu senti que simplesmente não tinha uma ideia interessante o suficiente para escrever um conto com tal ambientação.

Até que, um belo dia, me peguei pensando em um farrapo de ideia que já vinha nutrindo há algum tempo, que seria o de escrever uma história épica, preferencialmente sobre uma guerra, mas do ponto de vista de um coadjuvante sem importância. Fosse um daqueles figurantes sem nome que a gente vê voando em uma explosão qualquer, ou de alguém que simplesmente se encontra à margem dos acontecimentos, perto demais para viver uma vida normal, mas ao mesmo tempo longe demais para, de fato, fazer alguma diferença no grande esquema das coisas.

À partir daí resolvi aproveitar a premissa, tomando como base um apanhado geral das histórias que se têm sobre Artur e seus cavaleiros. O título, Cavaleiro Anônimo, não só tem sua natureza explicitada na trama, mas é também uma homenagem a um filme do qual gosto muito e que também traz em si a marca de ser protagonizado por um “quase” herói, Soldado Anônimo, de Sam Mendes.

Espero que gostem!

Quer ler esse e outros contos da coletânea Excalibur – histórias de reis, magos e távolas redondas? Acesse: http://editoradraco.com/2013/09/02/excalibur-historias-de-reis-magos-e-tavolas-redondas/ e garanta o seu exemplar!

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Originalmente publicado em http://blog.editoradraco.com/2013/09/excalibur-escrevendo-cavaleiro-anonimo-andre-s-silva/