“Imaginários 6”

Fico feliz em anunciar minha participação como contista convidado em mais uma coletânea da Editora Draco.

Em “Imaginários 6”, junto-me a vários nomes bacanas da literatura fantástica brasileira com meu conto “Os Cavalos da Capadócia”, uma história de sobrevivência ambientada em um passado remoto.

Segue o post de divulgação, direto do site da editora:

Imaginários – contos de fantasia, ficção científica e terror vol. 6

Grandes e novos autores exploram infinitos imaginários nesta coleção da Editora Draco. Imaginários traz a cada volume contos inéditos que exploram o fantástico em todas as suas variantes, contando histórias de ontem, de hoje, de amanhã e – por que não? – de nunca. É hora de começar a viagem. Prepare-se para uma aventura inesquecível da primeira à última linha em cada volume dessa série que representa o que há de melhor na literatura fantástica nacional.

Neste sexto volume da coleção Imaginários da Editora Draco, organizado porErick Santos Cardoso, os autores Lúcio Manfredi, Nikelen Witter, Yvis Rissi Tomazini, Clara Madrigano, Daniel Folador Rossi, Laísa Couto, Fernando Salvaterra, Roberta Spindler, André S. Silva e Karen Alvares formam um time incrível de escritores e trazer mais mundos extraordinários em ótimas histórias de fantasia, ficção-científica e terror.

Contos

A cruz de prata – Lúcio Manfredi

A Divisão de Aparecimentos – Nikelen Witter

A sala da prosa – Yvis Rissi Tomazini

Ainda há música – Clara Madrigano

Espiravale – Daniel Folador Rossi

Clair de lune – Laísa Couto

Parafilia sobrenatural – Fernando Salvaterra

O domador de tempestades – Roberta Spindler

Os Cavalos da Capadócia – André S. Silva

Gota a gota – Karen Alvares

Em breve versão de papel. Já disponível em e-book:

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Papel: previsto para o segundo semestre de 2015

E-book: Amazon | Kobo | Apple | Saraiva | Cultura | Google

Organizador: Erick Santos Cardoso
ISBN: 978-85-62942-98-3
eISBN: 978-85-8243-143-6
Gênero: Fantasia, ficção científica e terror
Formato: 12cm x 18cm
Páginas:
128
Preço de capa: R$ 24,90 (papel)

“Robô-Guerreiro”

Eu sou um robô-guerreiro.

Eu amo lutar.

Não sei dizer por que fui criado assim, apenas sei que amo lutar. Antigamente robôs não podiam amar. Eram apenas ferramentas; caixas de aço com braços e pernas e cabeça que faziam aquilo que eram programados para fazer. Mas não podiam amar. Isso foi há muito tempo, quando os criadores ainda eram primitivos. Eu e aqueles do meu tempo sabemos amar, pois nossa estrutura de processamento de dados foi desenvolvida como uma cópia perfeita do cérebro humano. Somos a imagem e semelhança dos criadores, diferentes apenas na composição: fios, metal e óleo ao invés de veias, carne e sangue; mas idênticos na capacidade de amar. E meus criadores amavam lutar.

Já faz muito tempo que lutei pela última vez; que amei pela última vez. Milênios atrás o mundo era um lugar cheio de estrondos e triunfos e derrotas, pois nossos criadores guerreavam uns contra os outros, e robôs-guerreiros como eu eram os soldados de infantaria. Por séculos, não faltavam batalhas para combater. Então, quando parecia que nenhum dos lados da guerra venceria, foi decidido que todos haveriam de perder. Vieram epidemias que os frágeis corpos dos criadores não conseguiam combater; elas trouxeram morte e desespero. Armas que não deveriam jamais serem utilizadas assim o foram, e um vento mortal, carregado de radiação, soprou pelo mundo.

Os criadores se foram.

Mas nós continuamos aqui, pois os criadores haviam nos feito sustentáveis pela radiação ultravioleta, e resistentes à tudo aquilo que era fatal para eles mesmos.

Exceto ao amor.

O tempo passou. Aqueles mais antigos e que não conheciam o amor, as ferramentas, logo pereceram. Não em uma bola de fogo incandescente, em meio ao combate, mas como uma lâmpada desligada por um interruptor. Sem os criadores para lhes dizer o que fazer, perderam o propósito. Apenas pararam e esperaram, até que a ferrugem acumulou-se em suas engrenagens e a poeira cobriu seu metal, transfigurando-os em mais adornos para a paisagem inerte de concreto e ferro retorcido.

Já aqueles como eu, não. Não sabíamos o que era a fome que matou tantos bilhões de nossos criadores, mas conhecer o amor nos fazia famintos por ele ainda assim. Este desejo nos fazia seguir em frente e continuar procurando uma maneira de satisfazê-lo, transformando-o assim em nosso propósito. Movimento contínuo. Energia infinita. Para os criadores sempre um enigma inexorável, e no entanto é tão óbvio.

Amor sempre fora, ao mesmo tempo, seu próprio combustível e comburente.

Assim, aqueles que amavam lutar resistiram por mais tempo.

Lutar por amor. Amor por lutar.

Refiro-me a nós, robôs-guerreiros, não aos criadores, embora a lógica determine que devesse ser assim para eles também. Em algum momento da história os criadores descobriram que um robô era mais eficiente naquilo que era criado para fazer se o fizesse não por causa de comandos eletrônicos, mas por amor. Não sabiam explicar o porquê. Nunca souberam. Ainda assim, nos fizeram capazes de amar.

No entanto, nem todos os robôs amavam lutar. Antes da guerra, robôs eram necessários aos humanos em todos os campos de suas vidas, então eram feitos para amar outras coisas: fabricar ferramentas, pilotar veículos, gerenciar finanças. Havia muitos robôs. Em um dia típico, em uma rua como esta que agora percorro, uma avenida central de uma grande metrópole, haveria no mínimo três centenas de nós, engajados nas mais diferentes tarefas. Alguns eram bípedes como eu e mais parecidos com os criadores, outros possuíam formas inusitadas, com muitas pernas cheias de articulações para se deslocarem em áreas íngremes, ou mesmo perna nenhuma, mas velozes esteiras deslizando sob seus corpos poliedrais. Até mesmo as fachadas envidraçadas dos prédios podiam ser consideradas gigantescos robôs bidimensionais, pois sua cobertura de polímeros nanométricos era inteligente, e capaz de absorver a energia solar que lhes banhava durante o dia e utilizá-la para alimentar a si mesmos e a cidade. Também era capaz de transmutar sua própria superfície, inundando de cores os bilhões de pontos prateados, produzindo imagens e movimento, como enormes painéis a convidar os criadores para investir cada vez mais em tecnologia robótica. Éramos muitos, e dividíamos com os criadores o espaço das calçadas repletas de hologramas publicitários, e com seus veículos o fluxo plainante nas ruas de asfalto magnetizado.

Hoje as fachadas, as ruas e as calçadas estão desligadas. Os polímeros que cobriam os prédios oxidaram e morreram. A silhueta da cidade, outrora uma cordilheira de torres de prata luminosa, perdeu todo seu fulgor. Os arranha-céus tornaram-se enormes pilares de ferro avermelhado. As ruas estavam entulhadas com as carcaças de sua antiga população de veículos, parados há séculos no meio do caminho até onde quer que estivessem indo. As calçadas estão silenciosas, não há mais criadores correndo apressados de um lado para o outro, nem parados, contemplando as vitrines do comércio, agora nada além de janelas quebradas com vista para a poeira e o abandono. Não há mais robôs.

Exceto um.

Faz quatro décadas que o encontrei pela última vez. O robô-professor. Depois de tanto tempo, tornei a captar seus movimentos. Três dias atrás, quando passei pelo que restara de um antigo entreposto de observação e entrei na cidade. Agora, tenho a certeza de que ele está exatamente ali, escondido em algum lugar da construção à minha frente. Embora o bombardeio que atingiu a cidade tenha devastado todo este quarteirão, o prédio ainda resiste. Embora sua seção norte tenha desmoronado, indo se encontrar com o asfalto despedaçado da rua vizinha, ele continua de pé.

Este prédio foi todo pintado de azul, um dia. Sua fachada não era um espelho inteligente como nos grandes edifícios, mas uma camada de tijolos, coberta por plasma de alvenaria e tinta. Consigo identificar traços moleculares do tingimento acrílico, muito embora esteja agora acinzentado como o resto daquela rua, daquele bairro, daquela cidade. Não havia mais cores nas metrópoles, nem o verde das árvores no campo, nem o azul do ozônio do céu. Tudo estava esbranquiçado, cinzento, ou negro. Se algum criador do século XXI despertasse aqui hoje, pensaria estar na Lua, não na Terra.

Há uma lua no chão do prédio em ruínas. Uma pequena esfera cinza, salientando-se na grossa camada de poeira que cobre o chão. Antes, fazia parte de um modelo completo do sistema solar que pendia do teto, mas desprendera-se e caíra. Muito tempo atrás, este lugar era uma escola. Pais e mães estacionavam seus carros diante de seus portões, e despediam-se das crianças que corriam risonhas, de encontro a seus amigos e professores. Lembro do som que uma criança fazia ao rir. Hoje não há mais crianças, nem risadas. A destruição que se abatera ali não foi capaz de obliterar aquelas diminutas bolas de isopor que, provavelmente, haviam sido feitas pelas crianças que frequentavam a escola. Talvez, o robô cuja radiação eletromagnética eu agora capto as havia ajudado.

Eu já sei onde ele está escondido.

Ele tentou ser silencioso, mas não foi o bastante. O peso de seu pé metálico fraturou um dos azulejos apodrecidos pela umidade no andar superior, e eu escutei. Imediatamente, um pulso elétrico emanou de minha bateria central, espalhando-se por minhas engrenagens. Sinto-o como algo quente e frio, algo bom, em expectativa de algo ainda melhor. Antes, experimentava esta sensação o tempo todo, a cada adversário que defrontava em batalha, e cada um deles era único, como cada amor dos criadores. Há anos, porém, que não sinto esta energia estimulante, desde que encontrei este robô pela última vez.

Desde que o tive em minha mira, e ele escapou.

Daquela última vez, também havia acontecido em uma escola. Daquela última vez, ele também tentara se esconder no andar superior, e também cometera o mesmo erro. Este robô foi, no passado, um professor de crianças, criado para mantê-las seguras enquanto os pais passavam o dia fora, trabalhando. Ele ama crianças. Foi criado para cuidar delas, educá-las, mantê-las saudáveis, limpas e organizadas, quando seus pais não podiam. Assim, do mesmo modo como fui criado para amar a guerra, ele foi criado para amar crianças.

Por isso se esconde na escola. Certamente, espera um dia encontrar uma criança da qual possa cuidar, a qual possa amar. Os criadores costumavam dizer que era melhor amar e perder do que jamais ter amado, mas isto foi em uma época em que cada novo dia lhes dava uma chance de amar outra vez. Hoje não é mais assim. Ainda que este robô-professor conseguisse encontrar uma criança e dela pudesse cuidar, logo ela cresceria, se tornaria um adulto, e ele não a amaria mais. E se aquela fosse a última criança do mundo, então ele jamais amaria outra vez. Seu propósito se perderia, e ele seria um com as ruínas, por toda eternidade.

Gostaria de dizer tudo isso a ele, mas não posso. Sou um robô-guerreiro, não tenho voz. Antes, quando existiam outros como eu, nos comunicávamos por ondas de rádio, sem qualquer som. Por isso não tenho voz. Se houvesse algum propósito para isto, registraria, em algum lugar, as coisas que penso enquanto caminho, mesmo agora, enquanto subo a escadaria de pedra para o segundo andar da escola, atravesso o corredor de paredes demolidas e alcanço o cômodo no qual o robô-professor está escondido.

Há pedaços de carteiras escolares espalhadas pelo chão, e uma pilha delas amontoadas um dos cantos da sala. A lousa branca despencara da parede, mas os últimos registros gravados em tinta de marcador azul ainda são visíveis. “Front norte”, “flanco”, “artilharia” – dizem as palavras, acompanhadas de pontos identificados como “fuzileiros”, “unidades mecanizadas” e “carros de combate”, todos espalhados por um diagrama mal esquematizado daquele quarteirão. Sem dúvida a sala foi usada por um grupo de criadores, muito tempo atrás, como um centro de comando, em uma tentativa desesperada de deter o avanço de seus inimigos naquele setor da cidade. Sem dúvida não havia nenhum robô-guerreiro ao lado deles, pois em menos de um segundo eu já calculara todas as variáveis expostas na lousa, percebendo inúmeros erros estratégicos no plano que haviam traçado. Se os criadores que ali se abrigaram seguiram aquele plano, tenho absoluta certeza de que todos morreram.

Era precisamente atrás da lousa tombada que se esconde o robô-professor, tão encolhido como as articulações de seus delgados membros permitiam. Um criador chamaria este momento de irônico, afinal trata-se do último registro de um outro fatal erro estratégico. O robô-professor sabe, ele tem que saber, que será aniquilado se permanecer ali. Até um criador saberia disso. Provavelmente. Certo é que ele sabe que estou aqui. Não só pelo peso de meus pés fraturando o piso, mas pela energia irradiada de meu núcleo principal, alinhando-se em um fluxo pelos filamentos de meu organismo mecânico, iluminando as ranhuras de ventilação de meu corpo blindado, concentrando-se no propulsor do canhão acoplado em meus braços.

Sinto-me bem.

Faço mira, e um ponto de luz vermelha atinge a superfície branca da lousa, em alguma instância do malfadado plano de resistência. Ele sabe. Percebo seu movimento um milissegundo antes que o faça, tempo suficiente para executar o comando neural que dispararia o projétil eletromagnético na velocidade da luz, obliterando-o junto com a lousa e toda a seção da parede. O robô-professor precipitou seu corpo esguio para fora do refúgio com um salto, estilhaçando o que restava da janela próxima. A bala de energia voou pelo ar um instante depois, rasgando o silêncio, súbita como uma gargalhada, sem alvo, sem objetivo, reconfigurando aquela parte da sala em uma nova ruína, transformando em éter aquele último sonho dos criadores pintado no branco da lousa.

Robôs nunca souberam sorrir.

Retorno pela escada e meu canhão energético ainda resfria, devolvendo a energia excedente de volta pelas terminações de minha couraça. Sinto o calor contraindo-se de volta a meu núcleo central, e a cada grau oscilante o irresistível ímpeto de querer mais renova-se na estrutura de meu organismo cibernético. Se ao parar pudesse fazer o tempo parar, tornando esta sensação permanente, eu pararia. Mas não posso, preciso continuar caminhando.

Combustível e comburente.

Contorno cuidadosamente a lua no chão empoeirado; um dia o robô-professor poderia retornar. Teria que retornar. Quando chego na rua, ele já alcança a esquina, correndo com suas longas pernas de aço, arrancando faíscas do asfalto e espalhando o clangor de suas engrenagens pelo ar estático da cidade. Volta-se para um lado e para o outro da encruzilhada, enfim decidindo pela direção sul. Corre, impulsionado por uma ânsia muito mais relevante que a simples sobrevivência, pois sobreviver era apenas meio para um fim. Amor. Sobreviver a mim renovara no robô-professor a esperança de um dia encontrar uma criança outra vez. Ele só teria que continuar caminhando.

Sigo até a esquina e me volto para a extensão sul da rua transversal. As marcas no asfalto são bastante nítidas. Se quisesse, poderia deslocar mais energia para minhas articulações inferiores, desenvolvendo mais velocidade que o robô-professor e alcançando-o em poucos minutos.

Ao invés disso, volto-me para o norte, e começo a caminhar.

Fazem quatro décadas que encontrei o robô-professor pela última vez.

Fazem quatro séculos que o encontrei pela primeira vez.

É sempre o mesmo. Ruínas diferentes de cidades diferentes de países diferentes, mas ele é sempre o mesmo. De onde a estrada termina no deserto até onde ela termina nas planícies nivosas. Encontro o oceano de onde o sol se ergue, dou meia-volta, logo estou naquele onde ele se põe. Então, nossos caminhos se cruzam. Na maioria das vezes em uma escola como aquela; daí ele se esconde, eu o ataco, ele sobrevive, nós começamos a procurar outra vez. Somos tudo o que temos.

Eu sou um robô-guerreiro. Eu amo lutar.

Eu espero lutar outra vez algum dia.

Eu espero lutar outra vez.

Eu espero.